Os Esquecidos de Domingo, de Valérie Perrin: memórias que resistem ao silêncio e à solidão
Foto: Maristela Benedet
Envelhecer: quando começa a velhice?
Como saber quando uma pessoa se tornou “velha”? Seria quando já não consegue cuidar de si mesma ou quando passa a viver contando histórias do passado?
Em Os Esquecidos de Domingo, romance de estreia da escritora francesa Valérie Perrin, publicado pela Editora Intrínseca, o tempo da velhice é atravessado pela solidão, pelas lembranças e pelas histórias dos moradores da Casa de Repouso Hortênsias, em Milly, na França.
É nesse cenário que conhecemos Justine Neige, uma jovem enfermeira de 21 anos que encontra nas memórias dos idosos uma conexão profunda. Talvez porque ela própria tenha sido criada pelos avós paternos depois de perder os pais e os tios em um trágico acidente de carro.
Órfã, Justine cresceu tendo como principais referências familiares os avós e o primo, filho dos tios falecidos e criado como um irmão. Assim, enquanto cuida das histórias dos idosos, ela também carrega suas próprias perguntas sobre a família, o passado e as perdas que marcaram sua infância.
A senhora da praia
Na Casa de Repouso Hortênsias, vive Hélène Hell. Uma senhora de 98 anos que passa boa parte dos dias diante da janela do quarto 91, como se estivesse diante do mar.
Seus olhos azuis parecem ultrapassar as paredes e alcançar a cadeira de praia onde, em suas lembranças da filha e do marido, permanece diante da imensidão do céu e do mar.
A amiga gaivota
Uma presença misteriosa também acompanha Hélène: uma gaivota próxima à janela, mesmo sem a ave existir na região. É uma companhia silenciosa para uma mulher que vive entre o presente e um passado que insiste em permanecer.
O caderno azul retém o tempo
Justine lê livros de memórias para Hélène, mas, principalmente, escuta. E essa escuta transforma-se em vínculo.
Em um caderno azul, a jovem registra suas histórias, seus segredos, alegrias e dores. A escrita passa a ser uma maneira de preservar aquilo que o tempo parece determinado a apagar.
A voz cansada da idosa, por vezes quase um suspiro, revela uma existência construída entre aquilo que foi vivido e aquilo que poderia ter sido.
Entre linhas, bordados e lembranças
A história de Hélène é marcada pelas dificuldades para aprender a ler e escrever durante a infância e pelas despedidas provocadas pela guerra na idade adulta.
Os grandes olhos azuis da menina refletem letras embaralhadas. Ela abandona a escola e aprende com a mãe o ofício da costura. Entre linhas e bordados de um vestido de noiva, conhece Lucien, seu melhor amigo e grande amor. O homem que foi seu marido, embora os dois nunca tenham chegado a se casar.
Escutar essas histórias ultrapassa o simples cuidado profissional para a enfermeira. O caderno torna-se também um espelho para seus próprios conflitos. Ao registrar as memórias da idosa, Justine começa a revisitar as suas.
Os esquecidos e os mistérios do passado
Enquanto mergulha na vida dos moradores das Hortênsias, a jovem percebe que sua própria juventude passa diante de uma rotina limitada entre o trabalho e a casa.
É nesse cenário que começam a acontecer ligações misteriosas para familiares dos chamados “esquecidos de domingo”, comunicando supostas mortes dos idosos.
O acidente
A situação desperta a curiosidade de Justine. Ao mesmo tempo, uma informação relacionada às circunstâncias do acidente que matou seus pais e tios provoca novas inquietações.
A busca pela verdade transforma-se em uma viagem à infância. Entre as histórias de Hélène e os silêncios dos avós, Justine procura compreender não apenas o passado dos outros, mas também as lacunas de sua própria história.
Quando ouvir também é uma forma de cuidar
Um dos aspectos mais profundos do livro Os Esquecidos de Domingo está na relação construída entre Justine e Hélène.
Separadas por muitas décadas, elas encontram uma na outra algo que talvez ambas procurassem: alguém disposto a ouvir.
Hélène tem histórias que precisam ser contadas. Justine tem perguntas que precisam ser respondidas. Aos poucos, memória e escuta aproximam duas mulheres em momentos completamente diferentes da vida.
Uma história sobre memória, velhice e afetos
Os Esquecidos de Domingo é uma obra tocante e envolvente sobre velhice, solidão, memória e os afetos que permanecem mesmo quando quase tudo parece ter sido esquecido.
Valérie Perrin constrói uma narrativa em que as histórias dos idosos também convidam a olhar para o próprio tempo e para aquilo que escolhemos guardar.
Porque envelhecer não significa deixar de existir. E lembrar não significa necessariamente permanecer preso ao passado. Algumas memórias encontram na palavra — e em alguém disposto a escutá-las — uma maneira de continuar vivendo.