Multipropriedade: sonho de imóvel de férias ou armadilha financeira? Especialista alerta para riscos ocultos do mercado de imóveis compartilhados

Modelo cresce em destinos turísticos brasileiros, mas consumidores relatam dificuldades de revenda, custos recorrentes e arrependimento após a compra

Multipropriedade: sonho de imóvel de férias ou armadilha financeira? Especialista alerta para riscos ocultos do mercado de imóveis compartilhados

Foto: Imagem IA

A multipropriedade se tornou um dos produtos imobiliários que mais cresceram no Brasil nos últimos anos. Presente em destinos turísticos como Gramado, Olímpia, Jurerê e em diversos resorts pelo país, o modelo atrai consumidores com uma proposta aparentemente vantajosa: utilizar imóveis de alto padrão pagando apenas uma fração do valor total.

Por trás do discurso de acessibilidade e exclusividade, porém, surgem questionamentos cada vez mais frequentes sobre liquidez, valorização, custos de manutenção e dificuldades para revender as cotas adquiridas.

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Segundo o especialista em mercado imobiliário Rafael Canuto, o consumidor precisa compreender exatamente o que está comprando antes de assinar qualquer contrato.

"Muitas pessoas acreditam estar adquirindo um imóvel tradicional ou um investimento imobiliário convencional. Na prática, a dinâmica da multipropriedade é completamente diferente e exige uma análise muito mais criteriosa."

Como funciona a multipropriedade?

No modelo de multipropriedade, o comprador adquire uma fração de um imóvel turístico e recebe o direito de utilizá-lo durante determinados períodos do ano.

A modalidade ganhou espaço por combinar turismo, lazer, sensação de pertencimento e um custo inicial menor quando comparado à aquisição integral de um imóvel de alto padrão.

O desafio surge quando parte dos compradores descobre que o produto possui características bastante distintas de um investimento imobiliário tradicional.

Entre os principais pontos de atenção estão:

  • Direito de uso limitado a períodos específicos;
  • Taxas anuais de manutenção e administração;
  • Regras de utilização definidas em contrato;
  • Dependência da gestão do empreendimento;
  • Baixa liquidez para revenda.

Venda emocional levanta debate no setor

Outro tema frequentemente discutido envolve o formato de comercialização adotado por parte das empresas do segmento.

As vendas costumam ocorrer em destinos turísticos, hotéis, shoppings, praias e eventos, onde famílias são convidadas a participar de apresentações sobre os empreendimentos.

Segundo Canuto, o consumidor deve evitar decisões tomadas sob forte apelo emocional. "Toda aquisição imobiliária exige análise racional. Quando a decisão acontece sob pressão, com ofertas limitadas ou sensação de urgência, aumentam as chances de arrependimento posterior."

Relatos de consumidores apontam que frases como "essa condição termina hoje" ou "o desconto é exclusivo para quem fechar agora" fazem parte de algumas abordagens comerciais utilizadas pelo setor.

Revenda é um dos principais desafios

Entre as maiores reclamações registradas por consumidores está a dificuldade para vender a fração adquirida. Ao contrário de imóveis convencionais, a multipropriedade depende de um mercado secundário bastante específico, com número limitado de compradores interessados.

Na prática, isso pode gerar:

  • Longos períodos sem encontrar compradores;
  • Necessidade de reduzir significativamente o preço;
  • Desvalorização das cotas;
  • Baixa liquidez do ativo.

"O maior erro acontece quando a multipropriedade é adquirida com expectativa de revenda rápida ou valorização semelhante à de um imóvel tradicional. São mercados completamente diferentes", explica Canuto.

Multipropriedade pode fazer sentido em alguns casos

Apesar das críticas, especialistas destacam que o modelo não deve ser tratado como inadequado para todos os perfis.

A multipropriedade pode ser uma alternativa interessante para consumidores que:

  • Frequentam regularmente o mesmo destino turístico;
  • Pretendem utilizar efetivamente o imóvel;
  • Compreendem as limitações do modelo;
  • Não enxergam a aquisição como investimento financeiro;
  • Planejam a compra de forma consciente.

Nesses casos, o benefício está no uso e na experiência proporcionada pelo empreendimento, e não necessariamente na expectativa de retorno financeiro.

O que analisar antes de assinar um contrato

Rafael Canuto recomenda atenção especial a alguns fatores antes da compra:

  • Ler integralmente o contrato;
  • Avaliar todas as taxas anuais;
  • Pesquisar a reputação da empresa;
  • Entender as regras de utilização;
  • Verificar custos futuros;
  • Avaliar a liquidez da cota;
  • Questionar como funciona a revenda na prática.

"Entrar em uma multipropriedade normalmente é fácil. O desafio está em compreender todas as obrigações futuras e entender como funciona a saída desse investimento."

Decisão exige planejamento e informação

Com crescimento acelerado e forte apelo comercial, a multipropriedade segue atraindo milhares de consumidores no Brasil.

Porém, o sucesso da experiência depende diretamente do alinhamento entre expectativa e realidade. Antes de fechar negócio, a recomendação é simples: pesquisar, comparar, analisar e tomar a decisão com base em informação, não apenas na emoção do momento.

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