Os abusivos preços dos ingressos para os shows do AC/DC no Brasil. E a boa notícia… para os produtores
Confira a coluna Monte de Música
Foto: Divulgação
Valores nas alturas, carteiras vazias e estádios lotados: o dilema do fã que se sujeita a pagar caro para não perder o show da vida
Quando os valores dos ingressos da turnê do AC/DC no Brasil - agendada para fevereiro e março de 2026 - foram divulgados, o choque e a revolta dos fãs foram imediatos: os valores começaram em R$ 850 para arquibancada inteira e atingiram R$ 1.590 para cadeira inferior inteira. Isso sem falar nos preços das entradas para a pista que foram “unificados” em Premium. Ou seja, acabou, nestes shows, pelo menos, o preço de “pista simples”.
Para muitos (a maioria - e eu me incluo neles) fãs, aquilo parecia uma afronta sobre o amor ao rock e algo totalmente fora da realidade econômica brasileira. Mas ainda assim, muitos clicaram em “comprar”. E de forma muito rápida. Eu não.

O que “deveria” ter sido feito, não foi.
A banda australiana não vem ao Brasil desde 2009 e a ausência só aumentou o desejo: o “tem que ver” virou “já comprei”. Afinal, como dizer não a “Back in Black” e “Thunderstruck”? Mas, peraí: pagar “qualquer preço” para ver uma banda abre um precedente perigoso. A partir de agora, os valores para assistir a shows vão ficar cada vez mais altos.
O que “deveria” ser feito? Boicote. Um show “flopado” seria um recado bem dado às produtoras. Mas não foi o que aconteceu. Muito pelo contrário. Os organizadores viram os primeiros ingressos esgotarem num piscar de olhos. Resultado: datas adicionais foram anunciadas para São Paulo, no estádio Estádio do Morumbis. Agora, o AC/DC vai tocar em São Paulo nos dias 24 e 28 de fevereiro e 4 de março de 2026. Ou seja: preço alto + demanda gigante = mais shows.E as datas extras já estavam ali esperando o sucesso de vendas para serem ativadas.
No papel, os valores para os shows ficam assim: arquibancada R$ 850 inteira (R$ 425 meia-entrada); pista A&B R$ 1.350 inteira (R$ 675 meia); cadeira superior R$ 1.490 inteira (R$ 745 meia); cadeira inferior R$ 1.590 inteira (R$ 795 meia). Tem algum brasileiro que, em sã consciência, acha esses valores normais? Traduzindo: pra ver sua banda favorita de perto, prepare o bolso. E o limite do cartão.

Os fãs aceitaram os valores
A produtora sorri — e com razão. Quando se vê público disposto a pagar R$ 1.590 por cadeira, a margem sobe. A lógica do mercado do show: se o público aceita, o valor sobe. E o Brasil, no caso, aceitou.
Eu, como radialista e jornalista há 20 anos e envolvido com muita proximidade com realização de eventos (inclusive shows), sei tudo que envolve trazer uma banda desse calibre ao Brasil. Os custos são altíssimos, a cotação do dolar não ajuda (tudo é pago em moeda norte-americana), mas, mesmo assim, dava pra dar uma “segurada” nos valores. Ah, dava!
Os shows deveriam ser sinônimo de multidão. E vão continuar sendo. Mas uma multidão elitizada.
Claro que, na hora em que as luzes se apagam e o primeiro acorde explode, todo o questionamento desaparece. O fã que economizou meses, que caiu num “vale cada centavo”, sente: “não me arrependo”. A emoção de quem está lá vence a conta. Mas há quem fique de fora. Quem ouviu os discos da banda nos anos 80, quem pulava na garagem, quem hoje não pode gastar quase (ou mais de) R$ 1.000 num ingresso. Essa exclusão torna a celebração mais amarga para grande parte dos fãs.
A banda, por sua vez, cumpre o papel lendário — trazendo ao palco o que se espera: show grandioso, clássico atrás de clássico, e plateia que “canta” cada riff junto. E isso faz o fã pensar: “se é agora ou nunca… vou”. Do lado do produtor, a lógica é clara: não há pena. É negócio: oferta limitada, montagem cara, retorno altíssimo. E quando o público casa com essa visão — compra rápido, vende no mercado, paga o que for (se endivida, inclusive) — o sistema se retroalimenta.
E o que isso deixa para o futuro? Talvez precisemos nos questionar: até quando pagar X por “ter visto a banda” ainda vale? Não seria hora de um boicote para termos valores menores no futuro? Ainda não foi dessa vez.
Em resumo: os shows do AC/DC no Brasil serão um espetáculo, sim — mas também demonstram que o brasileiro paga o que for preciso (até o que não tem) para estar lá. O bolso sente. O produtor sorri. A maioria dos fãs chora.